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Analise Organizacional da Associação de Reciclagem e Agentes Ambientais Ecos do Pampa

RODRIGUES, Claudio Cezar CabreiraDescargar PDF

Introdução
Na cidade de São Borja, estado do Rio Grande do Sul, Brasil, há um grupo que sobrevive com a coleta de materiais recicláveis jogados no lixo, sendo que alguns já estão conseguindo organizar-se em forma de associação, porém tem dificuldades em sua organização para concretizar a formas mais sólidas. Pois o município não conta com programa de coleta seletiva de lixo que dificulta o trabalho destas pessoas, pois isso os obriga a trajetos longos para recolherem objetos recicláveis.
Tradicionalmente, os planos de desenvolvimento do município são definidos pelas classes dominantes ou por esferas políticas centralizadas, e somente depois são comunicados aos interessados. Esses procedimentos, baseados em uma cultura paternalista e clientelista, que é preciso ser superado com um processo de construção política que propicie a participação ativa e consciente dos atores sociais, na definição dos projetos de desenvolvimento local.
(ALMEIDA & RODRIGUES, 2007).
Portanto, segundo os mesmos autores, são necessários planos de desenvolvimento local que propicie a participação popular e institucional em todas as suas etapas. Para que através da sistematização e subordinação de poderes dos diferentes interesses da sociedade em que estão inseridos, possam atender a um desejo maior dos atores sociais, não deixando suas ações restritas a determinadas classes sociais e a certos espaços da cidade.
Com esta realidade a coleta de materiais recicláveis é de responsabilidade apenas de uma empresa privada, com sede principal na cidade de Santa Maria, (Centro do Estado) que aproveita parte desses resíduos, pois tem instalada em São Borja uma usina para recolher materiais recicláveis. A mesma não tem nenhum programa que estimule a separação de materiais recicláveis em suas áreas de coleta, sendo levado em caminhões que prensam o material a ser reciclável com todo tipo de impureza, que depois de passar pela esteira da usina vai para o aterro dito “SANITÁRIO” onde algumas pessoas que freqüentam o local aproveitam o que podem, antes de ser enterrados por máquinas.
Seria de grande importância para o município a organização dos recicladores e a coleta seletiva de materiais, que devido situação de pobreza e falta de emprego, poderia ser uma fonte alternativa de trabalho e renda para famílias que fazem da coleta um meio de vida. Segundo Singer (2002), podendo passar de grupos e associações a cooperativas mais estruturadas para melhorar as condições de vida dos envolvidos neste processo.
Sendo assim o presente trabalho tem como objetivo analisar uma associação de recicladores, Ecos do Pampa que vem realizando um trabalho na cidade de São Borja. Sua relação com a comunidade, com o poder público local e com as empresas que fazem um trabalho semelhante. Procurando entender como ela se organiza em seu funcionamento.

Metodologia
Para atingir os objetivos pretendidos, foi realizada uma pesquisa de campo, através de um estudo de caso. Também se utilizou uma óptica dialética para uma compreensão integrada de meio onde vivem as pessoas da associação e sua participação no processo de mudança, em relação ao cuidado com o meio ambiente de seu município.
Nos métodos aplicados também foi realizada una análise global da região, ou seja, buscando trabalhos já existentes sobre o assunto a fim de obter uma visão inicial sobre o tema estudado, conforme Garcia Filho (1999).
Depois foi apresentada uma proposta de trabalho em assembléia geral para que as pessoas do Ecos do Pampa ficassem cientes do que estava sendo feito em sua organização. Sendo a proposta aceita por unanimidade. Posteriormente, foi aplicado um questionário grupal semi-estruturado, para saber sobre a associação, como foi constituída, onde se originou suas propostas para a comunidade em geral de desenvolvimento de seu trabalho com os recicladores de resíduos (GEILFUS, 1999). Outro questionário foi feito especificamente com os membros da coordenação, em que se perguntou como funcionam as tomadas de decisões, suas relações de trabalho e com o poder público e outras entidades do município.
Também foi utilizado do DOP1, que visa compreender problemas específicos como entender um pouco da historia da organização, sua política de gestão e o perfil dos trabalhadores, visando sempre à participação de todos, que garantisse pontos de vista diferentes. Em esse processo, as pessoas são informadas com detalhes sobre o diagnóstico: para que foi utilizado, quem irá utilizá-lo, partindo da idéia que o individuo possa cooperar totalmente ou escolher o que não deseja participar do processo.
Essa clareza de metodologia pode ser um dos primeiros passos de confiança, que vai sendo reforçado em decorrer do trabalho, com a aplicação dessa técnica (BROSE org., 2005).
Posteriormente, no decorrer do trabalho, a técnica de observação participante proposta por Haguette (2005), na qual os dados são recorridos a partir da participação do investigador na vida da organização, adotando um papel de “observador passivo”. Este método contribuiu com a investigação, uma vez que possibilita ao investigador conhecer a realidade com proximidade, onde seu foco de estudo se encontra.
Foi feita depois, a análise dos dados e sua devolução à organização que permitiu analisar as potencialidades e dificuldades encontradas, para sugerir possíveis soluções. Essa devolução também serviu para que as pessoas presenciem qual é a visão das pessoas de fora da associação. (GARCIA FILHO, 1999; EMATER/RS, 2001).
A Ecos do Pampa
A Associação de Agentes Ambientais Ecos do Pampa é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, sem distinção de cor, raça, credo e sexo.
A Associação trabalhará pela defesa dos interesses e da valorização de seus associados, tanto em relação à acessória que servirá para o seu melhoramento técnico, assinatura do contrato de prestação de serviços, realização de cursos, desenvolvimento do espírito comunitário, em relação às entidades parceiras, inclusive as públicas com as quais estabelecerá convênios.
Ela é coordenada por um grupo de pessoas eleitas por Assembléia Geral, onde todos os membros votam, a formação dessa coordenação pode variar de duas a seis pessoas, prioritariamente 50% de homens e 50% de mulheres. Também há um conselho fiscal, formada por duas pessoas e um suplente.
A Associação Ecos do Pampa começou do Orçamento Participativo criado pelo Governo Estadual, onde o povo local decide a respeito da aplicação de fundos que criou na cidade de São Borja uma frente emergencial de trabalho.
Esta frente de emergência que era administrada pelo município, que criou um programa de agentes ambientais (ou recicladores) como proposta de formação dos envolvidos, para se transformar em uma política estruturante. Mas, com o fim do repasse de fundos do poder público local desativou-se o programa, deixando os envolvidos desamparados, sem nenhuma assistência para manterem-se com garantias de trabalho.
Algumas dessas pessoas, que haviam trabalhado no programa, tentaram manter a rotina de suas funções, mas não conseguiram manter uma renda satisfatória. Então com a ajuda de alguns profissionais que haviam trabalhado com eles e outros voluntários da comunidade (egressos de universidades locais) construíram a idéia de formação de uma associação, que seria diferente das ouras organizações existentes, onde ela poderia ser dirigida pelos próprios recicladores. Assim, se formou, em 31 de março de 2007, a Associação de Agentes Ambientais e Reciclagem Ecos do Pampa, ficando com o mesmo nome do programa anterior, mas com objetivos e estrutura organizacional totalmente diferenciada.
Objetivos
A Associação Ecos do Pampa apresenta os seguintes objetivos:
Promoção de espaços de reflexão, estudo e discussão que auxiliem com a formação de agentes ambientais dispostos a trabalhar pela construção da consciência social de compromisso com a defesa do meio ambiente, o qual se expressa concretamente no cuidado permanente com a destinação dos resíduos sólidos que a sociedade cria.
Promoção de cursos para os associados e pessoas interessadas, que tratam da formação humanista, da consciência sócio ambiental, da qualificação técnica da maneira correta de separação, destino e reutilização de resíduos próprios para o desenvolvimento do artesanato e outros trabalhos culturais.
Desenvolvimento de campanhas de educação ambiental junto à comunidade, visando sensibilizar a população para os benefícios ambientais, sociais e econômicos que o município teria com uma coleta seletiva eficiente.
Desenvolvimento de atividades culturais, de lazer e esportes para a promoção humana e integração dos associados, objetivando promover a reflexão e motivar ações que contribuam na formação de pessoas comprometidas com o meio ambiente e dispostas a cuidar dele.
Organizar um sistema de coleta, separação e tratamento de resíduos sólidos de lixos domésticos, de empresas ou entidades públicas e privadas que se dispuserem a serem parceiras da Associação, buscando alternativas de trabalhos para pessoas desempregadas.
Proporcionar o trabalho ambiental para aquele associado que estiver desempregado.
Receber, padronizar, industrializar e comercializar a produção de seus associados, aplicando métodos e técnicas adequadas.
Atividades
Diante do quadro alarmante de desemprego em São Borja, bem como a má distribuição de renda, representada por uma taxa de indigência de 42% (IBGE, 2002). O que tem levado a ampliação dos bolsões de pobreza na área urbana. E devido ao Êxodo Rural, sua urbanização vem se acelerando de 82,41% em 1990 para 90,5% no ano de 2005 (FEE, 2005). Refletindo vários problemas sociais, tendo apenas nessas áreas medidas paliativas, na forma de políticas emergenciais. Dificultando as organizações mais estruturadas de classes necessitadas, por falta de políticas estruturantes.
Com os dados acima, a Associação Ecos do Pampa, discutiu com os envolvidos nessas situações, criando, então, um organograma de atividades para tentar sanar algumas dessas situações difíceis, por qual passam as pessoas de baixa renda de São Borja:
1º- Esta organização, acima de tudo, foi criada para discutir com outras organizações e entidades a coleta seletiva de lixo.
2º- Outras funções às reuniões deliberativas e assembléias, para eliminar e aceitar novos sócios, participando ativamente junto a Universidades e do poder público. Para as Universidades mostra seu trabalho e a importância para o poder público da limpeza pública, de reservas ambientais de onde juntam o lixo das margens dos rios de seus afluentes, mais constantemente na limpeza parcial de terrenos baldios, ajudando no controle do mosquito da dengue, que tem focos no município, mesmo tempo pouco retorno dessas entidades.
3º – Oferece ainda à comunidade limpeza dos terrenos baldios, paisagismo, poda de árvores, jardinagem e limpeza de terrenos em geral. Possui ainda muito pouca estrutura, sem capacidade de atender a toda a demanda. Enfrenta um pouco de dificuldade de aceitação de seu trabalho por parte da comunidade, por não ter nenhuma entidade comprometida com a associação.
4º – Trabalhar com materiais recicláveis, e a coleta semi-seletiva, aproveitando somente o que pode ser comercializado: plástico, pets, alumínio e ferro, procuram dentro do possível à integração direta com a comunidade, fazendo visitas de casa em casa, tentando comprometer a população em juntar materiais para a Associação ao invés de colocar para que os caminhões de lixo levarem ou jogarem a céu aberto.
5º – Foram realizados cursos de capacitação dos associados na introdução a economia solidária, auto-gestão, separação de resíduos e reciclagem de resíduos orgânicos para serem usados como adubo, introdução a agroecologia, relações humanas e sociais, divisão do trabalho.
6º – Também está tentando fazer, atualmente, um levantamento apurado de todos os recicladores que fazem parte do município, para tentar aumentar o número de associados, para poder aumentar seu poder de negociação com o poder público local.
Tecnologia
O local onde está instalada a Ecos do Pampa, é uma área pertencente ao município que lhe concede a permanência de modo informal (cada um na sua). Sendo cedido pelo poder público local: energia elétrica, e prensa doméstica com pouca capacidade, que prensa somente pets2, plásticos e papelões, não prensando latas nem ferro. O que dificulta o tamanho dos fardos, que são pequenos, não tendo meios de serem comercializados, fora do município, pois, os grandes compradores exigem fardos de 100 a 150 kg feitos por prensas industriais de grande capacidade.
O recolhimento do material é feito pelos associados, apenas com um carrinho de tração humana, tendo outros mais, mas, estragados, fora de circulação. Isto dificulta a coleta do material ficando restrito a locais mais próximos e alguns supermercados da região que lhe cedem material.
A Ecos do Pampa, mesmo com pouca estrutura ainda procura manter-se em atividade, buscando ajuda de grandes empresas, mas não tendo ainda o retorno esperado.
Indivíduos
As pessoas que fazem parte da associação de sua formação participaram de uma frente emergencial de trabalho, implantado pelo Orçamento Participativo, um programa que dizia ser a saída para o problema de desemprego no município, e elas eram mais de 50.
Este programa de agentes ambientais tinha apoio dos Governos Estadual e Federal, sendo uma contrapartida do município que forneceria a estrutura e a formação das pessoas.
Como os fundos eram temporários, em seis meses as pessoas recebiam um salário mínimo por mês, no final desse período eles tinham que já estar prontos para irem à busca de sua autonomia.
Foram contratados biólogos, especialistas em gestão de resíduos para a formação das pessoas envolvidas no programa ainda contavam com a ajuda de universidades locais: UERGS3, URCAMP4, mesmo assim, quando terminou os fundos, os que eram contratados pararam de trabalhar e o poder público se retirou entregando as pessoas a sua própria sorte. Alguns ficaram no local, tentando continuar os trabalhos, mas não conseguindo manter-se financeiramente, mas com a ajuda de voluntários começaram a criar formas mais estruturadas, tendo a idéia de formar uma associação de recicladores, convidaram as pessoas que trabalhavam antes para retornarem ao galpão de coleta e tentarem resistir até encontrar alguém para ajudar o movimento. Mas o descaso do poder público obrigou muitos a desistirem, ficando apenas da primeira organização pouca pessoas, sendo os outros novatos.
O pessoal é composto, em sua grande maioria por pessoas totalmente carentes e de grandes necessidades financeiras, que encontram na associação uma maneira de ganhar a vida. Hoje, existem onze famílias que vivem diretamente da reciclagem, algumas moram em bairros bem afastados, mas mesmo assim, não faltam ao trabalho.
Essas pessoas viram na Associação, uma maneira de melhorar seu poder aquisitivo, de sobreviver e sustentar suas famílias com dignidade.
Existem alguns que não sabem ainda direito o significado da associação, eles estão somente pelo ganho monetário que ela proporciona. Isto causa o enfraquecimento dos ideais da associação. Também, muitos abandonam a associação porque eram acostumados a ter uma renda mensal do antigo programa que acabou, esperaram que a renda voltasse, mas isso não aconteceu abandonando a associação. Os outros motivos de desistência foram às dificuldades da estrutura para a realização do trabalho e, como a associação trabalha de maneira diferenciada, da divisão do trabalho, sem patrões, todos trabalhando de forma solidária, essas pessoas não conseguiram adaptar-se ao novo sistema de trabalho.
Hoje, sua composição é de 14 pessoas, sendo 6 homens e 8 mulheres, algumas das mulheres estão afastadas temporariamente por terem filhos pequenos e também outras arrumaram serviços temporários, esperando a melhoria da situação da associação para retornarem.

Organização do Trabalho.
A organização do trabalho, no inicio, foi muito difícil para a Associação. As propostas da organização tinham bases solidárias com uma economia alternativa, como afirma Singer (2002), no entanto, solidariedade ainda é uma novidade para a maioria das pessoas que fazem parte dela. Pois, muitas dessas pessoas estão acostumadas a trabalhar sozinhas, tendo, portanto, ainda a dificuldade de dividir o trabalho e os ganhos com outras pessoas. Pois, são acostumadas a competição imposta pelo modelo econômico vigente.
A competição, segundo o mesmo autor, é boa de dois pontos de vista: ela permite a todos nós escolher o que mais nos agrada pelo menor preço; e ela faz com o melhor ganhe, uma vez que as empresas que menos vendem acumulam prejuízos e se não conseguem mais clientes, acabam por fechar. Sendo assim, associar-se em proveito de um objetivo comum, valorizando o que de melhor tenham os membros dessa associação, seja qual for o produto que se venda ou comercialize, o interessante é fazer uma competição saudável, onde os pontos fortes de cada um contribuam em proveito do melhor andamento dessa sociedade.
Apesar de darmos o nome de competição, o interessante seria uma cooperação entre semelhantes em vez de competir, isto dará harmonia ao ambiente de trabalho, fazendo que se forme o ponto principal do sucesso de toda e qualquer associação: A Solidariedade.
A solidariedade na economia, diz Singer (2002), só pode se realizar se ela for organizada igualitariamente pelos que se associam para produzir, comercializar, consumir e poupar. A chave dessa proposta é a associação entre iguais em vez de um contrato entre desiguais. Na cooperativa ou associação de produção, protótipo de empresa solidária, todos os sócios têm a mesma parcela de capital e, por decorrência, os mesmo direito de voto em todas as decisões. Este é seu principio básico. Se a cooperativa ou associação necessita de diretores, estes são eleitos por todos os sócios e são responsáveis perante eles. Ninguém manda em ninguém. E não existem competições entre os associados, todos ganham igualitariamente. Se ela for mal, acumular dívidas, todos participam por igual nos prejuízos e nos esforços em pagar esses débitos.
Mas, alguns dos associados que haviam participado do programa antigo, acharam que quem deveria vir dividir o trabalho, seria um patrão ou algum chefe. Ou seja, estavam acostumados a hetero gestão, que é quando as ordens vêem de cima para baixo, onde os níveis hierárquicos mais baixos não participam das decisões da associação. Mas, como se encontravam ainda em processos de mudanças organizacionais foram buscar outras maneiras de divisão de trabalho, através da autogestão, que é quando todas as decisões de uma associação são tomadas e as ordens e instruções devem vir de baixo para cima e as demandas de informações de cima para baixo, envolvendo todos no processo decisório (SINGER, 2002).
Mas, muitos ainda tinham dificuldades em romper o padrão de individualismo e de exploração que estavam acostumados, para passar a modos mais solidários de trabalho, alguns não estão bem desenvolvidos, tendo, às vezes, recaídas de individualismo, querem ganhar mais que os outros por acharem que trabalham mais e que tem mais direitos que os outros.
Sendo assim, dentro destas propostas solidárias, é preciso muitos exercícios dos envolvidos, que ainda dependem de coordenação para a divisão de tarefas. Isto pode vir a ser a dissolução da organização, pois não tendo recursos e nem estrutura, tendo dificuldade diante às novas propostas organizacionais, abandona-o seus objetivos para tirar proveito dos menos favorecidos, passando de oprimidos a opressores.
A Estrutura Organizacional da Ecos do Pampa
Com as novas propostas de trabalho e as novas estruturações na associação a visão do centralismo democrático adotado, contribui para o fortalecimento do ambiente coletivo. Uma vez, que prevaleçam as decisões tomadas em conjunto, apresentando uma estrutura horizontal muito diferente das organizações verticais encontradas, na maioria das associações, cooperativas, sindicatos encontradas no município (RODRIGUES et.al., 2007).
Também foi notada a participação das mulheres nas tomadas de decisões. Elas não encontram nenhuma dificuldade em expor suas opiniões para o grande grupo. Poucas não entendem seu papel na associação, deixando a tomada de decisões para os outros membros.
A estrutura organizacional da Ecos do Pampa, e suas tomadas de decisões acontecem da seguinte maneira:

Fluxo de tomada de decisões na Associação:

 

 

Fonte: (RODRIGUES, et., al., 2007).

Fonte: (RODRIGUES, et., al., 2007).

O ambiente interno são todas as pessoas associadas, que participam das atividades da associação, seria a associação em si. A Assembléia Geral é onde são tomadas as decisões que ditam os rumos a serem seguidos por todos, onde são passados para a coordenação, que executa as decisões tomadas na Assembléia, retornando os resultados para a mesma.
O ambiente externo é onde está inserida a associação, seria o município com outras organizações, o Estado e o país. Um exemplo, quando é tomada a decisão de vender um produto a uma determinada empresa, a coordenação receba a decisão e dirigi-se para a empresa retornando para a assembléia a proposta dessa empresa. Esta visão parece ser uma maneira complicada de tomar decisões, mas quando as pessoas se acostumam com ela, este é o melhor modo de evitar que as decisões se tornem monopolizadas por uma minoria, deixando os outros associados de fora.
Os Produtos da Organização
Um dos principais produtos da associação são o trabalho, renda e cidadania. Primeiro vem o trabalho, pois a organização proporciona uma ocupação aos associados que não têm emprego para seu sustento. A renda é conseqüência desse trabalho, sendo esta renda não é um salário, estipulado fixo, pois eles dependem unicamente do que recolhem nas ruas, de algum outro trabalho: limpeza de pátios, jardinagem, etc., para garantir este ganho financeiro.
A cidadania vem logo depois, quando o individuo, que não tem esperanças de lago melhor em sua vida, consegue uma ocupação digna, sente-se parte de algo maior e também contribui para o melhoramento da sociedade, sente-se um cidadão, sua auto-estima, suas esperanças por dias melhores se acendem. Martinez coloca sua opinião a respeito da reconstrução do sentimento de comunidade através da solidariedade:
A reconstrução do sentimento de comunidade por meio de redes de solidariedade é o caminho para superar o individualismo possessivo das ideologias de mercado. Com reminiscências organicistas e certo ar melancólico, o novo comunitarismo propõe uma reestruturação social que permita rever os vínculos primários, as lealdades locais e as tradições reafirmadoras das pertinências. Sua divisão é introvertida, seu destinatário é o mundo dos valores e as paixões e seu objetivo potencializar o cimento que sustenta a sociedade civil. A finalidade da associação voluntária transcende a qualquer objetivo especifico: seu aporte a reconstrução da comunidade é suficiente para justificar sua existência e legitimidade, já que vale em si mesma, não interessando sua projeção futura, mas a sua comunidade que lhe dá sentido. É imperativo da ação a reconstrução das relações sociais e a promoção e facilitação da trama que dá sentido às identidades e às solidariedades. Suas atividades são mecanismos para a prevenção e reparação dos danos produzidos, a superação dos males que excedem as capacidades individuais e das famílias e a satisfação de necessidades e aspirações sociais e coletivas com independência de que estas sejam ou não atendidas pelo Estado (MARTINEZ, 2008).
Outro ponto gerado como produto da associação é a limpeza ambiental, onde acontece a diminuição de resíduos, que seriam uma das fontes mais importantes para administrar a diminuição do lixo urbano. O que seria o lixo urbano na verdade? Enquanto muitos produtos que colocamos fora, podem ser meios de sustento de muitas famílias, como o papel, pets, alumínio e outros materiais recicláveis. Esse descaso da sociedade em relação ao meio ambiente se da atualmente, com a influência dos meios de comunicação, populações inteiras são induzidas a padrões de consumo elevados, demonstrando nitidamente que não sabem dar finalidade aos resíduos e produtos, como seringas, pilhas, lâmpadas de alógeno, colocadas em qualquer lugar próximas a rios, nascentes, causando danos irreversíveis à natureza e a saúde humana (WALDMAN&SCHNEIDER, 2003).
A partir dessas realidades, a associação desempenha papel fundamental para:
 Mudança dos hábitos culturais e de consumo das pessoas, incentivando-as a adotar posturas ambientais mais corretas;
 Redução da produção de lixo na fonte, ou seja, procurar evitar ou diminuir ao máximo a geração de resíduos;
 Incentivar o uso de embalagens descartáveis;
 Reutilizar diretamente os materiais como garrafas de vidro e embalagens industriais.
Procurando sempre a diminuição do consumo de materiais que não possam ser reciclados, e sempre colocando em pauta para as discussões com a comunidade: De quem é a maior responsabilidade pelo lixo? Das empresas protegidas pelas leis que especificam no rótulo do produto que ele pode causar danos, tirando sua culpa? Ou da população que não tem informações especificas de como tratar seu lixo?
A Associação procura demonstrar para a população em geral que o cidadão tem o dever de destinar seu lixo de modo mais consciente, onde seus resíduos podem ser recolhidos, não devendo ser jogados em terrenos baldios ou margens de rios, onde podem causar acidentes ambientais muito graves, trazendo muitos problemas de saúde para toda a comunidade.
Pois, o crescimento mundial das cidades aumentou a quantidade dos tipos de materiais utilizados na fabricação de produtos, aumentando por um lado, a procura de energia e de matérias primas e, por outro lado, as montanhas de lixos produzidas diariamente. Há 30 anos, cada pessoa produzia entre 200 a 500 gramas/dias de lixo, enquanto hoje na América Latina, se estima entre 500 e 1000 gramas por pessoa e nos paises do Hemisfério Norte, valores de 2 a 4 vezes maiores (WALDMAN & SCHENEIDER, 2008).
Segundo os mesmos autores, a composição do lixo também vem se alterando, completamente passa a ser uma massa enorme, diversificada, parcialmente não biodegradável e com porcentagens crescentes de materiais tóxicos e perigosos, quando não inclui materiais radioativos (o caso do Césio em Goiânia, Brasil, é um dos exemplos mais conhecidos desse tipo).
Sendo assim, dar informações sobre os perigos causados pelo lixo no ambiente e para a saúde em geral, é o caminho que a associação encontrou para criar um vinculo com a comunidade e também gerar renda e trabalho para seus associados, ajudando no crescimento de sua cidadania. Pois, contribuindo para a limpeza das ruas e casas, cria-se uma sensação de integração mutua de cooperação, onde os associados mostram que seu serviço é de sua importância para o município e para a manutenção do bem comum.
As Relações de Poder
As relações da associação com empresas da mesma linha de ação são de exploração, pois, existem somente duas empresas que compram os materiais da associação. Então, ela fica presa a essas empresas, não podendo comercializar seus produtos com empresas de outras localidades, pois, sua prensa é muito pequena e seus fardos não têm o tamanho exigido para compra fora do município.
Por um determinado tempo, a associação prestou serviço a uma dessas empresas, separando resíduos: papel e pets. Mas, eles foram induzidos a um serviço de exploração, onde os ganhos não eram suficientes para sustentar-se, ainda passando pelas mãos de atravessadores. No entanto, eles conseguiram livrar-se dessa situação, trabalhando hoje, somente para si próprios e para a manutenção da associação.
Com o poder público, a relação da associação é meio “nebulosa”. Pois, eles foram deixados para ocupar o galpão do município, sem nenhuma estrutura sanitária, somente com eletricidade para o funcionamento da prensa.
Foi notado em uma reunião, onde o representante do poder público apareceu de modo informal, não se apresentando oficialmente. Esse deu a entender que, como a associação não foi criada por eles, ela não teria direitos e que as outras empresas cobram do poder público que pagam impostos ao município, e expõem que a associação pode tornar-se uma empresa, competindo com elas. Sendo que a Ecos do Pampa não paga impostos e não tem fins lucrativos e as decisões são tomadas pelo coletivo, não tendo nenhum gerente ou presidente para negociar com entidades locais que alegam que tem dificuldades de tratar com o coletivo seria mais fácil tratar com uma pessoa só, isso demonstra a dificuldade desses órgãos de entenderem essa organização.
Considerações Finais
Essa associação foi criada de maneira diferenciada de qualquer outra existente na região. Sua visão de solidariedade na economia e suas tomadas de decisões em assembléia geral, não tendo um único chefe e sim um grupo de pessoas, que tem proposta diferenciada de trabalho, a qual a comunidade e o município, ainda não conseguem compreender como funciona.
Alguns dos indivíduos que fazem parte da associação são totalmente carente, semi-analfabetos, então para eles a associação é uma maneira diferenciada de trabalhar, oferece a eles um modo diferente de conviver, dando-lhes uma alternativa de participação nas tomadas de decisões, coisa que dificilmente encontrariam em outras organizações. Com esse ambiente de participação está desenvolvendo nessas pessoas uma nova personalidade, onde elas participam ativamente de todos os processos da associação, não tendo segregação entre os sexos, ou seja, as mulheres também participam ativamente de tudo. Mas, ainda é necessário muito trabalho, e exercício de solidariedade para livrarem-se dos vícios do individualismo e da exploração.
O poder público local e as empresas que trabalham no mesmo ramo, se preocupam que a associação tome conta de todas as atividades, pois ela esta organizando todos os recicladores da cidade. E se todos os recicladores se unirem em torno da associação, essa conquistará mais poder de negociação na comercialização de seus produtos, eliminando os atravessadores e obrigando o poder público a implantar a coleta seletiva no município e comprometendo-se com as pessoas envolvidas nesse novo processo.

Bibliografia
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2001 Metodologia Participativa: uma introdução a 29 instrumentos. Porto Alegre/RS: Tomo Editorial.
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2001 Sustentabilidade e Cidadania: Sub- Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável – Enfoque Agroecológico – Fichas Pedagógicas. Porto Alegre.
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1999 Diagnóstico de sistemas agrários: guia metodológico. Projeto de Cooperação Técnica INCRA/FAO (UTH/BRA/051/BRA): Brasília – Distrito Federal
GEILFUS, Frans
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HAGUETTE, Tereza Maria Frota
2005 Metodologias Qualitativas na Sociologia. 10. Ed. Petrópolis: Ed. Vozes
MARTINEZ. Roberto Nogueira
2008 Estado Administración Pública y Sociedad. Aportes para analices de la gestión pública. Colección de artículos.
RODRIGUES, Claudio Cezar Cabreira et.. al.
2007 O MST e suas contribuições para o processo democrático no meio rural no município de São Borja. Artigo apresentado no CONGREGA/URCAMP, Caçapava do Sul/RS. Novembro de
SINGER, Paul
2002 Introdução à Economia Solidária. 1ª ed. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo.
WALDMAN, Maurício; SCHNEIDER, Dan Moche
2003 Guía Ecológico Doméstico. 3. ed. São Paulo: Contexto.
Sites Consultados
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